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Edição (antecipada) de quinta-feira, 11 de outubro de 2018.

O seguro de sorte



Gerson Kauer

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O jogador de futebol, de média expressão regional, cobrava parcelas rescisórias. A contestação trouxe recibos, cópia de uma apólice de seguro, etc. Com base nos documentos, o clube sustentou nada dever.

Na réplica, em longa petição, o advogado do atleta verberou que “o clube deixou, todavia, de cumprir a obrigação de contratar o seguro de sorte”. E sustentou que “tal descumprimento seja resolvido em perdas e danos”.

Na audiência, o advogado da agremiação esportiva, bramindo com os autos em mãos, leu a cláusula oitava do contrato: “Quanto à cobertura securitária prevista na legislação, o clube contratará o pertinente seguro, de sorte que a entrega da futura apólice comprovará o cumprimento da obrigação”.

E arrazoou:

- A Lei Pelé prevê que os clubes de futebol devem contratar seguro de vida e de acidentes pessoais, vinculado à atividade desportiva, tanto para atletas sob regime de contrato de formação desportiva, quanto para atletas profissionais. Fizemos isso!

Feições de impaciência, o juiz destilou:

- Senhores, conforme o Dicionário Prático de Expressões Correntes, a expressão ´de sorte´  significa ´de maneira que´. Ademais, consultei compêndios de seguro e não encontrei uma só referência à existência, no país, desse seguro reclamado pelo autor. O tal seguro de sorte não existe!

Sorrisos irônicos e constrangimentos cruzaram-se na sala. O magistrado inflou-se, então, com ares de professor do idioma pátrio:

- A vírgula pode ser uma pausa, ou não. Vou dar um exemplo. Se eu escrever ´Vamos perder, nada foi resolvido´, o conteúdo da frase será antagonicamente diferente de ´Vamos perder nada, foi resolvido´.

Sorriso amarelo, o advogado do autor se conformou e desistiu da ação. E o juiz foi comedido na conclusão da singela sentença: “De sorte que, sem o seguro de ventura, que na realidade não existe, - e em necessário bom português e atento às vírgulas, homologo a desistência”.


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