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Terça-Feira, 19 setembro de 2017

Os negócios obscuros da LaMia dona do avião que levava a Chapecoense



Reprodução do Facebook

Imagem da Matéria

Um ex-parlamentar venezuelano está na origem da empresa LaMia - companhia aérea dona do avião que caiu na Colômbia, matando 19 jogadores da Chapecoense, além de dirigentes, jornalistas e tripulantes. Ricardo Albacete Vidal é o fundador e proprietário da empresa na Venezuela, tendo transferido as operações para uma subsidiária boliviana em janeiro de 2015. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

A LaMia anunciou, em 2010, o início das operações no Estado de Mérida. Criada após um acordo com o governo de Hugo Chávez para impulsionar o setor aéreo do país, a aérea foi registrada como uma companhia de ciência e tecnologia. Com isso, foi beneficiada com a influência política para levantar dinheiro junto a um fundo de investimento criado pelo governo chinês para estimular a economia venezuelana.

Os voos regulares, no entanto, não decolaram. O governador de Mérida à época, o chavista Marcos Díaz Orellana, deu todo o apoio ao projeto, mas foi apontado por Albacete como responsável pelo atraso nos repasses de investimento público e na burocracia. Em 2013, finalmente, a LaMia levou seus planos para outro Estado venezuelano: Nova Esparta.

O governador local, general Carlos Mata Figueroa - um dos mais destacados integrantes do então "núcleo duro" do chavismo – abraçou o plano, mas a mesma situação antes ocorrida em Mérida se repetiu: o investimento público chegou em pequenas doses e a empresa não avançou.

Em janeiro de 2015, Albacete desistiu da operação venezuelana, transferiu as aeronaves para a Bolívia e criou a LaMia Bolívia, em sociedade com Miguel Quiroga, piloto que já voava como instrutor na escola de aviação Aerodinos e era genro do ex-senador boliviano Roger Pinto Molina.

Quiroga, de 36 anos, comandava o jato que caiu nesta terça-feira e não sobreviveu ao acidente. Ele morava no Brasil com a mulher e os três filhos. Vivia em um distrito da cidade de Epitaciolândia, no Acre, e estava construindo uma casa na cidade.

"Ele era louco por aviação; um dos melhores pilotos que conheci" - disse ao jornal O Estado de S. Paulo o instrutor de pilotagem acrobática Júlio Soares, de Rio Branco.

Da Bolívia, o político Ricardo Albacete transferiu-se para a Espanha, mantendo as operações da LaMia a cargo de Quiroga. No país europeu, o fundador da companhia passou a fazer lobby para os negócios da China Sonangol, gigante chinesa do setor de petróleo com sede em Angola. Um dos principais executivos da China Sonangol, Xu Jinghua - mais conhecido pelo nome que adotou, Sam Pa - foi figura-chave na criação da LaMia, segundo o próprio Albacete afirmou em entrevista a uma emissora venezuelana de televisão.

Um vídeo, gravado em 2011, mostra Albacete afirmando que o capital da LaMia Venezuela teve ajuda do empresário chinês. "É uma empresa de todos os cidadãos de Mérida. Eu e minha família temos um capital inicial, com um apoio de um investimento chinês" - afirmou. "É um chinês amigo de muito poder aquisitivo que conheci há alguns anos. Já tive empresas na China. Ele nos apoia um pouco com essa operação. Seu nome é Sam Pa e investe em Angola" – completou.

Nesta terça-feira (29) - poucas horas depois que a notícia sobre o acidente alcançou o mundo - Albacete afirmou que "um raio provavelmente provocou o acidente" em declarações ao jornal espanhol El Confidencial. Ele disse que sua empresa – a LaMia Venezuela - apenas arrendou os aviões à LaMia Bolívia. "Não somos acionistas nem empregados. Deixamos o mesmo nome para não perder a pintura do avião, que arrendamos a eles".

Prisão e diamantes

As operações de Sam Pa à frente de investimentos chineses pelo mundo o levaram a sentar-se à mesa com líderes como o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, e o próprio Hugo Chávez.

Sam Pa foi alvo, em junho de 2014, de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por "prejudicar as instituições democráticas do Zimbábue" e por "participar de tráfico de diamantes".

O chinês ainda foi descrito pela seção de antiterrorismo do Departamento de Tesouro como "partidário do regime de Robert Mugabe".

"Entre outras ações, Sam Pa deu mais de US$ 1 milhão para membros do governo do Zimbábue para apoiar sua agência de inteligência repressão" – admitiu o governo estadunidense. "Como resultado dessas ações, congelamos todos os bens desse indivíduo dentro das jurisdições dos EUA. Qualquer transação com cidadãos americanos ou entidades do país está proibida" – complementa a versão oficial.

As sanções aplicadas pelos EUA não impediram o chinês de continuar com suas operações em Angola, Zimbábue e tentar comprar um bloco de exploração de petróleo na Galícia - a operação não deu certo, mas, posteriormente, a China Sonangol conseguiu comprar parte de uma empresa concorrente.

A trajetória do executivo chinês, no entanto, foi encerrada abruptamente no dia 8 de outubro de 2015, quando Sam Pa foi detido pelas autoridades chinesas sob a acusação de corrupção na condução dos negócios do China Investment Fund (CIF).

A defesa da empresa aérea

As autoridades colombianas passaram parte da madrugada desta quarta-feira (30) reunidas no aeroporto de Medellín para conversar sobre o acidente com o avião que trazia a delegação da Chapecoense.

Um dos participantes do encontro foi o representante da empresa aérea boliviana LaMia, Mário Pacheco, que ao fim da conversa, disse aos jornalistas que a aeronave não tinha problema de autonomia e ressaltou que a companhia tem experiência em transportar times de futebol.

A imprensa colombiana especula que o avião que trazia o time catarinense para a final da Copa Sul-Americana, contra o Atlético Nacional, caiu nas proximidades do aeroporto por ter ficado sem combustível. O representante negou.

Pacheco explicou que a companhia, fundada há cerca de um ano, tem toda a documentação necessária para operar voos fretados e que não há risco de erro do piloto. "Falha humana não há. No momento em que realizarem as investigações periciais das gravações das caixas-pretas do avião, vão poder determinar quais foram as causas" - sustentou.

A LaMia tem uma frota de três aviões e já tinha feito um outro voo da Chapecoense anteriormente, além do transporte de equipes e seleções da América do Sul, inclusive da Argentina.


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