O Doutor Plaggio e a Clínica de Advocacia (26.06.09)| Charge de Gerson Kauer |
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Por Rafael Berthold,
advogado (OAB-RS nº 62.120)
O telefone não chega a tocar pela segunda vez e já é atendido:
– Clínica de Advocacia Doutor Plaggio, bom dia!
– Clínica de Advocacia?! Como assim?! Liguei por causa do seu anúncio no jornal, mas acho que foi publicado errado. Vocês escreveram “’causas’ pré-fabricadas”, mas acho que vocês quiseram dizer “casas pré-fabricadas”, não é?
– Não, senhor. O anúncio está correto. Aqui nós só trabalhamos com causas judiciais pré-fabricadas.
– Olhe, eu advogo há 30 anos e nunca ouvi falar em Clínica de Advocacia e muito menos em “causas pré-fabricadas”! Eu exijo falar com o responsável!
A atendente, então, transfere a ligação para o gabinete do dono da clínica:
– Alô, aqui é Dr. Armando Plaggio, seu criado – a voz era máscula, ainda que suavizada por um chique sotaque cosmopolita.
– Ah, é você o assassino do nosso Código de Ética? Que história é essa de Clínica de Advocacia?!
O interlocutor toma fôlego para não se deixar cair na provocação recebida.
– Antes de qualquer coisa, muito bom dia e obrigado por preferir a Clínica de Advocacia Dr. Plaggio - o tom era jovial. Aqui só trabalhamos com causas judiciais em que outros advogados obtiveram estrondoso sucesso e que nunca falham. Ou seja, nossas teses são produtos prontos. O cliente é que se enquadra, ou não, nas causas que oferecemos e não o contrário, como nos escritórios de Advocacia convencionais.
Ao ser indagado sobre como funcionava o seu sistema vencedor, o Doutor Plaggio, explicou que seus clientes tinham acesso ao “cardápio” de ações que lhes era disponibilizado no próprio estabelecimento ou via saite na Internet. Lá constavam as causas como: revisão de pensão, Lei Britto, Sistema Financeiro de Habitação, planos econômicos, dentre outras. A cada novo produto descoberto entrava em cena uma agressiva campanha publicitária.
O diálogo telefônico prossegue:
– Quando surge uma tese vencedora, até nossos estagiários saem pelas ruas como homens-placa! – disse o Doutor Plaggio.
– Mas isso não é Advocacia. Isso é ato ilícito! - insistiu a voz.
– Ilícito?! Minha clínica é uma clínica como qualquer outra! Ora, todos que implantam cabelos, aplicam botox, receitam dietas estão usando técnicas inventadas por outras pessoas e ninguém reclama! Não posso perder tempo criando teses. Preciso ganhar dinheiro. Ou você acha que minha Ferrari é tão moderna que não precisa de gasolina?
– É, você deve estar certo... - o velho advogado agora culpava seu zelo profissional por sua falta de sucesso financeiro, justificando que "só queria uma casinha pré-fabricada".
– Boa sorte com sua casinha, amigo – completou o Doutor Plaggio, em sincera solidariedade. A propósito, nessa compra você pretende usar o SFH? Porque se for, não deixe de passar aqui na clínica. Temos um produto prontinho especialmente pra você... Bem, talvez não especialmente, mas... Bem, venha nos fazer uma visita...
(*) E.mail: rafael@seb.adv.br