Terçta-feira, 28 de Outubro de 2014

Programa inoportuno

Romance forense   |   Publicação em 21.08.12

Charge de Gerson Kauer

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A paquera entre o advogado e a bacharel, ambos trabalhando numa grande banca de Advocacia - com feições de empresa - já durava mais de um mês, mas sem resultado prático. Até que combinaram se encontrar em badalada discoteca da avenida Goethe. Ali, após momentos e libação de epidérmico convívio, o novel par concluiu que o conveniente seria o rumo de um motel.
 
Avenidas Cristiano Fischer, Ipiranga, Cavalhada etc. foram varadas sem sucesso. Era madrugada de  noite veranil, motéis lotados e - pior - ainda com meia dúzia de carros na fila.
 
- Eu não vou me expor, aguardando
- sentenciou a bacharel.
 
Antevendo que a "presa" lhe escaparia, o advogado propôs:
 
- Conheço uma rua pequena, escurinha, com segurança, meu carro tem ar condicionado - claro que não é o motel que mereces, mas garanto que vai ser bom...
 

Ela topou e os calientes convivas tomaram o rumo do Partenon. Em minutos, passaram às preliminares e, após, às profundezas. Mas não contavam com o imprevisto: uma senhora, tripulando seu próprio carro, no rumo de sua casa próxima, por temor de assalto deu meia-volta e foi buscar dois soldados num quartel da Aparício Borges.
 
Cinco minutos depois - em pleno momento "x" do ato sexual - os PMs bateram com os cassetetes nos vidros do carro, um de cada lado. Transa interrompida!
 
Depois foi o vexame de um chá-de-banco na antessala do delegado gozador. E meses depois, o advogado e a bacharel viram-se processados pela prática de crime de ultraje público ao pudor. "Foi um ato sem explicação racional" - calcou o Ministério Público.  
 
A constrangedora conjunção fez com que o advogado e  bacharel quase se odiassem e o namoro não deslanchasse. Ela procurou emprego em outra banca advocatícia. Denunciados no Juizado Especial Criminal, ambos tiveram condenações.
 
Os defensores dos dois réus eram diferentes. O que defendia o jovem advogado se conformou, admitindo que a condenação (multa, de pequeno valor) era branda e, assim, liquidava o processo.  A profissional que defendia a bacharel seguiu insistindo com a tese de que "em rua escura, no recôndito de um automóvel com os vidros fechados, manter discreta relação sexual com discreção não constitui ilícito penal".
 
A Turma Recursal foi benigna: "não ofende o pudor público a relação sexual dentro de um automóvel, somente perceptível com a aproximação junto ao veículo". O apelo foi provido para absolver a apelante e estender os efeitos ao corréu.
 
Os dois personagens são agora cordiais amigos. Sempre que se encontram, a bacharel dá uma alfinetada:
 
- A mulher é um ser superior!...
 


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EDITOR EV

Marco Antonio Birnfeld formou-se advogado em 1971, pela PUC-RS. Foi em 1983 o primeiro juiz leigo dos Juizados Especiais de Porto Alegre, na época chamados de Juizados das Pequenas Causas. Atuar ali (graciosamente) significava "prestar relevante serviço público". Em um ano na função, alcançou o expressivo índice de 82% de conciliações.

Em 1º de janeiro de 2014 completou dez anos de exercício no cargo de conselheiro seccional da OAB-RS - mandatos alcançados em quatro eleições sucessivas.

Abandonou a Advocacia contenciosa em 2012, decepcionado com "o crescimento jurisdicional da estagiariocracia". Reside à beira-mar em Itajaí (SC), mas mensalmente está em Porto Alegre, para atender compromissos com a Ordem gaúcha.

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