Ir para o conteúdo principal

Sexta-feira , 29 de Julho de 2016.

O anjo do voo JJ-3054



Imagem da Matéria

Publicação feita na edição de 23.08.2011 do Espaço Vital




Na tarde de 17 de julho de 2007, um empresário, 40 de idade, almoça com a mulher e os filhos, algumas horas antes da decolagem do voo JJ -3054. No meio da tarde a esposa deixa o marido no aeroporto Salgado Filho. Mas ele tinha a intenção de ir para São Paulo só no dia seguinte. Por isso, comprara outra passagem para a manhã do dia 18. Detalhe sutil: o empresário tinha uma namorada, profissional liberal bem-sucedida, 30 de idade, moradora no Moinhos de Vento.

E foi para a casa dela que ele se dirigiu, de táxi, logo após ter sido deixado no aeroporto pela esposa. Assim, apesar da tarde hibernal, chegou ao Moinhos ainda com dia claro. Beijos e abraços iniciais, os amantes conversaram, degustaram queijos e vinhos etc. A noite seria prazerosamente longa. Como a tevê, o rádio e, evidentemente, os celulares estavam desligados, o único som ambiente era proporcionado pela sucessão de músicas no aparelho de CDs.

Enquanto isso, o Brasil recebia a notícia chocante: ao aterrisar em Congonhas, às 18h51min, o Airbus A-320 da Tam atravessara a pista molhada - e todos sabem qual foi o desfecho.

Alheios, em seu “ninho de amor” no Moinhos, o empresário e a namorada acordaram cedo e tomaram o café da manhã no dia 18. Não leram jornais, não escutaram rádio e nem ligaram a tevê. Ele pegou o avião para São Paulo às 9h30min. Sentiu uma certa consternação no aeroporto, mas não se flagrou.

A moça o levou para o aeroporto – mais um vez, ouvindo apenas música produzida pelos CDs. Esse estado de alienação do mundo não é surpreendente: os únicos grupos que jamais deixam de acompanhar as notícias via rádio, tevê e jornal são os profissionais da comunicação, os intelectuais e os assessores políticos. A maioria das pessoas, porém, vive encapsulada em seu mundo de interesses particulares, vez por outra dado uma espiada nos assuntos públicos.

Após se despedir da moça, o empresário reassumiu o papel de marido atencioso. Fez o que prometera à sua mulher no dia anterior: ligar “de São Paulo” na terça-feira pela manhã.  Do outro lado da linha, ela estava aos prantos. Quando se refez da emoção, a mulher perguntou se o marido trocara de voo. Foi, então, que ele deu a resposta serena, mas enfática, que o incriminou de forma inapelável: “Não. O voo foi tranquilo. Cheguei, jantei e dormi bem”. Mais lágrimas do outro lado da linha.

Em seguida, o empresário ficou sabendo de todo o sofrimento vivido por sua família na noite anterior, diante da certeza de sua morte. A mulher acabou pedindo separação do marido. Há quem tivesse encarado com bom humor o desfecho, sugerindo ao empresário que apresentasse a namorada como o “anjo do voo JJ-3054”, que o livrou da morte.

Durante uma semana, o homem foi impedido pela mulher, com o apoio dos filhos, de entrar em casa para pegar suas roupas. Posteriormente, ele foi morar num flat. Quando resolveu cair nos braços do seu “anjo” do Moinhos ao invés de, como estava programado, ir para os céus de São Paulo, o empresário acabou fazendo de sua vida um inferno...

Conta-se que pouco mais de seis meses depois, o empresário e sua esposa separaram-se consensualmente numa das Varas de Família  do Foro de Porto Alegre.

Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

Voyeurismo na academia de ginástica

 

Voyeurismo na academia de ginástica

Vidrado em fitness, o homem se exercitava seis vezes por semana. Abandonado pela namorada, pretendeu protestar contra as mulheres – e o fez de forma insólita. Pôs seu celular a gravar imagens no banheiro feminino. Foi flagrado e... 

Charge de Gerson Kauer

Impotência sexual não é risco de vida...

 

Impotência sexual não é risco de vida...

Para o juiz de primeiro grau, a falta de virilidade masculina não dá direito a medicamentos por conta do Estado, ainda mais em tempos de grande crise. Mas para o tribunal, “a prática sexual conjugal é garantia fundamental – e não um direito meramente programático”.

Charge de Gerson Kauer

As muitas caras do Facebook

 

As muitas caras do Facebook

A mulher desconfiava do companheiro, sobretudo pelo tempo que ele passava no computador.  Os dois tinham profissões diferentes e distantes:  ele operador jurídico; ela, dona de uma loja de cosméticos. Durante o dia não se viam; à noite, antes de irem ao leito, ele ficava muito tempo teclando.

Charge de Gerson Kauer

Profissão: “esposa demitida”

 

Profissão: “esposa demitida

A mulher gostava de – nos combates de Eros – às vezes apresentar-se como “a secretária que atendia o patrão”.  Mas ela era, mesmo, convivente do homem de quem – ao separar-se – depois tentou, em juízo, obter indenização trabalhista.