Ir para o conteúdo principal

Quarta-feira , 03 de Fevereiro de 2016

Uma nação sem caráter



Por Cássio Roberto dos Santos Andrade,
procurador do Estado de Minas Gerais.

 
Carina, Patrícia e Manuela estão sentadas no meio-fio ao lado de um semáforo da avenida principal da cidade, às 2h30 de uma madrugada fria. Estão descalças, sem agasalhos, o que provoca um abraço fraternal para esquentar os três corpos miúdos, maltratados pela vida, despedaçados pela desigualdade. Aguardam alguém que venha buscá-las ou autorizá-las a dormir. Os carros passam com os vidros fechados. A cidade é perigosa.

Elas têm sete, seis e cinco anos, respectivamente. Vendem balas no sinal de trânsito, lutando por qualquer ajuda.  Sustentam o lar de uma família cujo pai nunca existiu e a mãe só fez repetir a saga de uma vida miserável que lhe veio como herança.

Se a sorte permitir, elas chegarão aos 12 anos, quando nascerão os primeiros traços da adolescência. Nessa fase, descobrirão que os vidros dos carros passarão a se abrir, onde surgirão olhares diferentes que oferecem dinheiro sem receber balas em troca. Querem mais. Elas não terão escolha; nunca tiveram.

No mês de março de 2012 a imprensa noticiou que o STJ decidiu que um adulto que praticara sexo com três crianças de 12 anos não cometeu crime, pois elas já estariam no mundo da prostituição. Pelo entendimento da corte divulgado pela mídia, a relação sexual com crianças menores de 14 anos só configuraria estupro se elas estivessem amparadas pelo manto branco da inocência. Para os togados, segundo o que se noticiou, as meninas haviam escolhido a prostituição.

As crianças que passam pelos sinais de trânsito nos carros luxuosos com os vidros fechados não podem ser molestadas. Elas não escolheram a prostituição. Já Carina, Patrícia e Manuela, pelo olhar justo dos que exercem o poder, podem preferir a violência da madrugada ao aconchego de um lar confortável, com babás caras, brinquedos raros.  

Pela mensagem que o Brasil lança ao mundo, essas filhas do abandono brasileiro têm capacidade e opção para decidir, livre e conscientemente, pelo caminho sujo de satisfazer os desvios de um submundo podre e hipócrita. Ao invés de reprimir o ato criminoso de um adulto perverso que optou por perpetuar a violação de três crianças, preferiu a nossa corte superior julgar o comportamento dessas meninas que nunca tiveram a chance de dizer não.  Nasceram condenadas sem culpa e sem crime.

Se todo o poder emana do povo, o país que aceita institucionalmente o estupro de qualquer de suas crianças, seja qual for a razão, é uma nação sem caráter.
 
O repugnante turismo sexual infantil agradece.
 
cassioroberto@cassioandrade.adv.br

Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

O lucro fácil de alguns advogados

O que preocupa alguns defensores de réus da Operação Lava Jato – “é a garantia do lucro fácil – certamente, de não muito poucos milhões de reais! Vão além, a prestar desserviço à incipiente democracia brasileira, a não dispensar a transparência e a firmeza da Justiça”. Artigo de Edison Vicentini Barroso, desembargador do TJ-SP.

O começo do fim?

O Brasil debate-se hoje na crise múltipla que pode ser a maior de sua História. A saída é ainda uma incógnita absoluta, mas, seja qual for, com a mesma ou com outro Presidente, o País que dela vai emergir será diferente desse dos últimos treze anos”.

Fim da amnésia cívica

Certa época, ´o brasileiro, a cada 15 minutos esquecia o que lhe aconteceu nos últimos 15 minutos´. Agora, o PT está sendo banido da História pelo Facebook”. Artigo do jornalista Ruy Fabiano.

Eu tenho feito a minha parte!

Advogado se opõe ao ´festival de medalhas´ na Assembleia Legislativa do RS: 20 láureas para parentes de uma deputada. E uma também para Evo Morales... Artigo do advogado Pedro Lagomarcino.

Os estagiários dão sentenças...

(...) “Eles fazem acórdãos, pareceres, prendem, soltam, elaboram contratos de licitação, revisam processos”. Rememore o artigo “A Estagiariocracia”, de autoria do então procurador de Justiça – agora aposentado – Lênio Luiz Streck (atualmente advogado), publicado pelo Espaço Vital em 21 de setembro de 2011.

Que não morra a esperança

O lado bom é que a admissão do processo de impeachment vem sacudir o marasmo e a mesmice do nosso quadro político. Ele já se ia tornando insuportável pela repetição dos mesmos erros, pela politiquice mais rasa e repugnante, pela falta de novidade e até pela interminável sucessão dos enxurros de lama que nos têm assolado”.