Porto Alegre, 17.05.13 - Criação de Marco Antonio Birnfeld - Tel. (51) 32 32 11 00 - 123@espacovital.com.br
|
Google
Página inicial
Imprimir
Enviar
Aumentar fonte
Fonte padrão
Diminuir fonte
Compartilhar nas redes sociais
Uma nação sem caráter

(08.06.12)

Por Cássio Roberto dos Santos Andrade,
procurador do Estado de Minas Gerais.

 
Carina, Patrícia e Manuela estão sentadas no meio-fio ao lado de um semáforo da avenida principal da cidade, às 2h30 de uma madrugada fria. Estão descalças, sem agasalhos, o que provoca um abraço fraternal para esquentar os três corpos miúdos, maltratados pela vida, despedaçados pela desigualdade. Aguardam alguém que venha buscá-las ou autorizá-las a dormir. Os carros passam com os vidros fechados. A cidade é perigosa.

Elas têm sete, seis e cinco anos, respectivamente. Vendem balas no sinal de trânsito, lutando por qualquer ajuda.  Sustentam o lar de uma família cujo pai nunca existiu e a mãe só fez repetir a saga de uma vida miserável que lhe veio como herança.

Se a sorte permitir, elas chegarão aos 12 anos, quando nascerão os primeiros traços da adolescência. Nessa fase, descobrirão que os vidros dos carros passarão a se abrir, onde surgirão olhares diferentes que oferecem dinheiro sem receber balas em troca. Querem mais. Elas não terão escolha; nunca tiveram.

No mês de março de 2012 a imprensa noticiou que o STJ decidiu que um adulto que praticara sexo com três crianças de 12 anos não cometeu crime, pois elas já estariam no mundo da prostituição. Pelo entendimento da corte divulgado pela mídia, a relação sexual com crianças menores de 14 anos só configuraria estupro se elas estivessem amparadas pelo manto branco da inocência. Para os togados, segundo o que se noticiou, as meninas haviam escolhido a prostituição.

As crianças que passam pelos sinais de trânsito nos carros luxuosos com os vidros fechados não podem ser molestadas. Elas não escolheram a prostituição. Já Carina, Patrícia e Manuela, pelo olhar justo dos que exercem o poder, podem preferir a violência da madrugada ao aconchego de um lar confortável, com babás caras, brinquedos raros.  

Pela mensagem que o Brasil lança ao mundo, essas filhas do abandono brasileiro têm capacidade e opção para decidir, livre e conscientemente, pelo caminho sujo de satisfazer os desvios de um submundo podre e hipócrita. Ao invés de reprimir o ato criminoso de um adulto perverso que optou por perpetuar a violação de três crianças, preferiu a nossa corte superior julgar o comportamento dessas meninas que nunca tiveram a chance de dizer não.  Nasceram condenadas sem culpa e sem crime.

Se todo o poder emana do povo, o país que aceita institucionalmente o estupro de qualquer de suas crianças, seja qual for a razão, é uma nação sem caráter.
 
O repugnante turismo sexual infantil agradece.
 
cassioroberto@cassioandrade.adv.br

Página inicial
Voltar ao topo
Imprimir
Enviar
Aumentar fonte
Fonte padrão
Diminuir fonte
6 comentários
Sander Felix Morais (analista judiciário do TRF 4ª Região)
Postado em 18.06.12 - 12:25:05

Ótimo artigo! Somos realmente extremamente covardes com nossas crianças e adolescentes. Infelizmente em alguns gabinetes o mundo real já se tornou invisível... Também é preciso lembrar que o princípio da prioridade absoluta no trato com crianças e adolescentes possui assento constitucional, de modo que decisões judiciais como essas, se consideram apenas o princípio da ampla defesa do réu também ferem juridicamente os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, pois não há ponderação.
Carlos Velho (assessor jurídico)
Postado em 15.06.12 - 11:33:15

Parabéns ao Dr. Cássio. Texto de uma clareza ímpar. Incluo-me no grupo referido pelo Dr. Romarko, e faço coro a sua indagação.
Romarko José Brum da Silveira de Azevedo (advogado)
Postado em 13.06.12 - 13:40:25

Parabéns ao colega pelo excelente artigo! Sua lógica me obriga a perguntar: até quando nós, integrantes da sociedade civil, operadores do direito ou não, continuaremos pactuando para que essas ignomínias aconteçam? Fatos ocorrem diariamente, bombásticos, dos quatro cantos do país e o máximo que fazemos - aqui me incluo - é manifestar nosso repúdio com trocas de e-mails ou artigos... O que estamos esperando para dar um basta definitivo?
Silvana Andara (advogada)
Postado em 12.06.12 - 13:24:15

Parabéns pela sua colocação, não podemos nos omitir. Nossas crianças não merecem este futuro, que pelo menos a justiça seja feita.
Jose Roberto Ostetto (advogado)
Postado em 09.06.12 - 13:20:32

Por ser extremamente chocante e envergonhador, do sistema corrupto e desmoralizado que, permissionistas, toleramos que seja mantido, talvez fosse melhor nem comentar. Mas um texto como esse, com o mais alto grau de elevado teor de verdade, pura, crua e irretorquível, até pela homenagem ao seu autor, não merece o nosso mero silêncio. Merece sim que seja potencializado pelo coro social da indignação, e principalmente repúdio, sugerindo que a toga da deusa desta justiça, fosse encurtada ao mínimo.
João Delfino (advogado)
Postado em 08.06.12 - 16:07:12

Extraordinariamente correto o artigo: do título ao ponto final. Parabéns, Dr. Cássio!
|
(Horário de Brasília)
Av. Praia de Belas, 2266, 8º andar - Cep: 90110-000 - Porto Alegre - RS - Brasil
Desenvolvido por Desize.