Ir para o conteúdo principal

Sexta-feira , 26 de Agosto de 2016.

A alma que está no limbo



Romance forense

Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria


A sexagenária serviçal da paróquia interiorana - conhecida nas fofocas da cidade - como "a mulher do padre" fora demitida de todas as suas funções. Mas recebeu apenas o aviso prévio indenizado. Por isso foi à Justiça Comum em busca dos "seus direitos".  Relatou que iniciou como empregada doméstica da residência do religioso, mas que, com o passar do tempo, “ambos acederam aos apelos naturais da carne”.
 
O juiz não poupou palavrórios numa sentença de 40 laudas, de improcedência da ação: "não há prova do concubinato, embora o padre seja um homem de comportamento ético duvidoso, que pecou ao, no depoimento, atingir a honra dela, acusando-a injustamente por dois furtos não comprovados".
 
O processo subiu ao TJ, para exame da apelação da "mulher do padre" - aliás, empregada do padre.
 
Ao confirmar a sentença de improcedência, o relator levou em consideração quatro aspectos: 1. A diferença de mais de 30 anos de idade que separa ambos; 2. O desnível cultural, econômico e profissional; 3. O padre sempre teve um comportamento pessoal, social e profissional sem qualquer arranhão ou mácula – tanto que recebeu do Papa a dignidade de “prelado de honra”. 4. A inexistência de prova testemunhal que confirmasse que as relações tenham sido constantes e de cama e mesa.
 
Foi quando o revisor - acenando com o artigo 114, da Emenda Constitucional nº 45 - lembrou que a competência processual para o conhecimento da demanda é da Justiça do Trabalho. Processo declinado, nada de solução definitiva por enquanto.
 
Recentemente o padre faleceu, mas a ação - por ser decorrente da relação trabalhista - deve prosseguir na Justiça do Trabalho.
 
A agora já septuagenária doméstica tem falado às vizinhas que "perdeu a fé em Deus e a crença na justiça dos homens". Por isso, deixou de ir à missa dominical, onde sempre comungava.
 
Há quem diga que, por enquanto, a alma do padre está no limbo.

Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

   O homem sem cuecas

 

O homem sem cuecas

Ao se preparar para a audiência de instrução, o juiz se deparou com uma situação inusitada: a petição inicial afirmava que o reclamante não podia usar cuecas no trabalho e era obrigado a ficar totalmente nu durante as revistas. E às vezes, tinha que se abaixar...

Charge de Gerson Kauer

Romântico à moda antiga

 

Romântico à moda antiga

Segundo o juiz, enquadrar o sentimento e as investidas românticas do reclamado – sobre sua empregada doméstica - como assédio sexual “seria uma pena demasiadamente pesada, pois, se assim fosse, todos os homens teriam que fugir das mulheres para evitar problemas com a Justiça”.

Charge de Gerson Kauer

Sentenças da vida

 

Sentenças da vida

Em um coquetel promocional do lançamento de um novo produto de argentário banco, de repente surge um cidadão bem vestido, nariz empinado, puxando assunto: “Muito prazer, eu sou o Doutor Menezes, magistrado aposentado!”...

Charge de Gerson Kauer

Voyeurismo na academia de ginástica

 

Voyeurismo na academia de ginástica

Vidrado em fitness, o homem se exercitava seis vezes por semana. Abandonado pela namorada, pretendeu protestar contra as mulheres – e o fez de forma insólita. Pôs seu celular a gravar imagens no banheiro feminino. Foi flagrado e... 

Charge de Gerson Kauer

Impotência sexual não é risco de vida...

 

Impotência sexual não é risco de vida...

Para o juiz de primeiro grau, a falta de virilidade masculina não dá direito a medicamentos por conta do Estado, ainda mais em tempos de grande crise. Mas para o tribunal, “a prática sexual conjugal é garantia fundamental – e não um direito meramente programático”.