Terça-feira, 29 de julho de 2014

Contador de causos

O estagiário Aurélio

Contador de causos   |   Publicação em 11.05.12


Por Rafael Berthold,

advogado (OAB-RS nº 62.120)

O estagiário Aurélio - no primeiro dia de estágio na grande banca de Advocacia - é bem recebido pelos novos colegas e pelo principal advogado da casa. O garoto não se intimida, vai logo dizendo que não tem a pretensão de fazer as vezes de burro de carga e que deseja trabalhar fazendo petições.  

O advogado, impressionado com ambição ostentada pelo neófito, o interpela:

– Gosto do seu espírito, meu jovem, mas você já elaborou alguma petição?

Silêncio... Aurélio não sabe o que responder. Apenas agora se dá conta de que não fazia a mais vaga ideia do que se tratava uma petição! Percebendo este fato, o chefe decide auxiliá-lo:

– Pegue o dicionário e leia em voz alta o que significa a palavra ´petição´!

Aurélio acusa o golpe em sua soberba. Cabisbaixo, vai lentamente à estante. Pega o dicionário, e, encontrando o verbete, proclama, com uma voz cheia de insegurança:

– ´Petição: 1.Bras. S. Petiço corpulento´. (1)

O advogado levanta-se da cadeira e toma o dicionário das mãos do estagiário.

– O quê?! Deixe-me ver isso aqui - em seguida abre-se em uma desrespeitosa gargalhada. E atalha em tom de ordem:
 
- Era pra você ter lido este outro resultado aqui, olha: ´Petição: 1.Ato de pedir. 2.V. rogo. 3.Requerimento´. (2)

Vendo o abatimento do estagiário, o advogado decide oferecer a ele um desafio. O diálogo se acentua:

– Não desanime! Ninguém nasce sabendo. Vou dar a você uma petição pra fazer. Começaremos em grande estilo: ´peça ovo´!

– Peça o quê?! – indaga o estagiário sem nada entender.

– Peça ovo!

Ok, doutor, mas pra quem eu peço?

– Não, meu jovem. Não é pra você pedir ovo! É pra você elaborar uma peça processual, uma peça ovo, ou seja, uma petição inicial, uma peça inaugural, a famosa peça vestibular! – exclama impaciente.

Me desculpe, doutor, mas estou farto de vestibulares, passar em um deles não foi fácil – coloca ingenuamente o estudante.

O advogado, agora furioso, contem-se em sua cadeira, aponta em direção a uma enorme pilha de processos.

– Aurélio, pegue esses processos e leve-os já pro foro.

– Mas... e se me perguntarem se eu trabalho com petição, o que eu digo?

– Diga que ´petição´ é justamente o que você é. Se duvidarem, mostre a eles no dicionário!  

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Marco Antonio Birnfeld formou-se advogado em 1971, pela PUC-RS. Foi em 1983 o primeiro juiz leigo dos Juizados Especiais de Porto Alegre, na época chamados de Juizados das Pequenas Causas. Atuar ali (graciosamente) significava "prestar relevante serviço público". Em um ano na função, alcançou o expressivo índice de 82% de conciliações.

Em 1º de janeiro de 2014 completou dez anos de exercício no cargo de conselheiro seccional da OAB-RS - mandatos alcançados em quatro eleições sucessivas.

Abandonou a Advocacia contenciosa em 2012, decepcionado com "o crescimento jurisdicional da estagiariocracia". Reside à beira-mar em Itajaí (SC), mas mensalmente está em Porto Alegre, para atender compromissos com a Ordem gaúcha.

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