Ir para o conteúdo principal

Atualização em 22.03.2017, às 16h

"Diga o juiz quando vai prolatar a sentença!..."



Romance forense

Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria


O magistrado de sobrenome Filho (*) era um "pai" para advogados, estagiários, servidores etc. quando se tratasse de deixar correr um papo-furado no seu gabinete.

Mas audiências de instrução, ele não gostava de realizar. Marcava uma solenidade prévia de conciliação - e se o acordo não fosse celebrado, determinava que os autos voltassem "conclusos". E assim o processo ia para uma pilha especial, no gabinete, onde repousava semanas e meses.

O magistrado também não gostava de sentenciar. Enfim era - como chegou a definir um ex-presidente da própria associação de classe - "um juiz que não gostava de processos".

Nesse contexto, sempre que no topo da pilha surgisse um processo complicado, o "doutor Filho" lançava um despacho evasivo: "comprovem as partes, reciprocamente, e em prazos sucessivos, a legitimidade ativa e passiva; após voltem". E assim se perdiam dois meses ou mais.

Em outros momentos, o magistrado prolatava tradicionais despachos que o escrivão - atento e espirituoso - já conhecia como corriqueiros e copiara para seu implacável arquivo: "diga o autor sobre o pedido do réu"; "intimem-se as partes para, em 15 dias, em prazos sucessivos, autenticarem as cópias simples que existem nos autos"; "fale o demandado sobre a pretensão do demandante"; "especifiquem autor e réu as provas que pretendem ver produzidas"; "diga o autor sobre o novo documento juntado"; "manifeste-se o advogado do réu"; "intime-se o procurador do autor sobre o documento de fls".

Certo dia, um advogado, o  Dr. Heitor (*) - já cansado de tantos "diga o autor", "diga o réu" - caprichou numa petição em papel bem mais grosso, com letras garrafais, impressas em vermelho: "As partes já cansaram de dizer;  por isso, diga agora o juiz quando vai prolatar a sentença".

O juiz levou um choque - afinal o Dr. Heitor era tão polido que jamais se esperaria que, dele, partisse uma petição que fosse, ao mesmo tempo, singela, objetiva, irônica e ferina.

Para livrar-se do problema, o juiz encaminhou à Corregedoria, então, imediato pedido de férias atrasadas.  Foi designado um magistrado substituto, recém promovido à capital, que recebeu como tarefa, sentenciar 60 ou 70 processos de uma pilha empoeirada, além daquele em que o Dr. Heitor concitava o magistrado titular a que, afinal, dissesse quando prolataria sentença.

O substituto desincumbiu-se com sucesso total.

E na volta das férias, o "Dr. Filho" foi promovido ao tribunal. Por merecimento.

..............................

(*) Os nomes são fictícios.

Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

O constrangedor erro do “copia/cola”

 

O constrangedor erro do “copia/cola

O equívoco do advogado que, ao apresentar os memoriais ao tribunal, não se apercebeu que inserira na peça judicial a cópia de uma divagação de cunho sexual, que enviara à namorada: “Minha amada, a estimulação vaginal pode aliviar dores crônicas nas costas, dores nas pernas e de cabeça, bem como enxaquecas”. O desembargador relator ficou espantado!

Charge de Gerson Kauer

Amélia, a mulher de verdade

 

Amélia, a mulher de verdade

Depois de oito anos de um relacionamento íntimo interessante, médico e professora se desavieram financeiramente na hora da separação. Um dos detalhes da prova revela que cabia a ela, sempre, pagar a conta mais cara, quando ambos iam juntos ao supermercado. “Era uma Amélia...” – observou a desembargadora revisora.

Charge de Gerson Kauer

   O pinto da comarca

 

O pinto da comarca

O vigário da cidade, em uma comarca de entrância inicial tinha, como mascote, um pinto chamado Valente. Certo dia, Valente desapareceu, e o religioso imaginou que alguém o havia furtado. No domingo, à hora do sermão, o padre perguntou à comunidade: “Alguém de vocês, aqui, tem um pinto”?...

Charge de Gerson Kauer

O marido, a esposa e o cunhado

 

O marido, a esposa e o cunhado

A chocante surpresa na sala de audiências da Vara de Família, quando a mulher - que estava a se divorciar consensualmente -  revelou ao juiz qual a verdadeira causa do rompimento conjugal. Ela assinou o termo e chorosa, pedindo desculpas, saiu porta afora...

“Papai Noel” visita a sede da OAB

 

“Papai Noel” visita a sede da OAB

Casaco e gorro vermelhos, um advogado se faz passar pelo bom velhinho natalino e vai se queixar, em sua entidade de classe: “A  lista de pedidos feitos, este ano, pelos profissionais da advocacia contém pedidos difíceis de atender e que não são de minha alçada”. O presidente concorda: “Não há saco que aguente”...