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Terça-feira, 28 de Julho de 2015

O estagiário fantasiado


Por Roberto Porto, jornalista

Os leitores do Direto da Redação devem estar cansados de saber que é óbvio ululante, segundo Nélson Rodrigues (1912-1980), que os jornalistas trabalham no carnaval – inclusive os integrantes da editoria de esportes. Não há folga para ninguém, rigorosamente ninguém.

Quando retornei ao Jornal do Brasil, a convite de João Máximo, já na sede suntuosa da Avenida Brasil, 500, lá estava no chamado ‘Tríduo Momesco’ ao lado de meus companheiros. Sempre havia alguma coisa para noticiar, até porque o mundo não é só carnaval e havia clubes cariocas treinando para as próximas rodadas. Foi durante o expediente, creio que, num sábado à tarde, aconteceu o rigorosamente inusitado.

Um estagiário de nome Rodrigo – sem o menor talento para a profissão – abriu de repente a porta da editoria de esportes e surgiu fantasiado de bailarina. Eu. Sinceramente, longe de meus filhos, não achei graça nenhuma. Tampouco João Máximo. Mas Rodrigo caprichou nos passos de balé e informou que acabara de vir de seu bloco de folia. Os demais integrantes da editoria, tiveram um acesso de riso com aquela figura folclórica e ao mesmo tempo grotesca..

Pior, ele queria porque queria uma matéria para escrever mesmo fantasiado. Aliás, até hoje, não sei como ele conseguiu passar pelos seguranças do JB e chegar até nós. João Máximo não poderia fazer outra coisa: deu-lhe um cartão vermelho. Rodrigo tentou argumentar, alegando que era carnaval e que precisava divertir-se além de trabalhar.

Para falar a verdade, anos depois, quando batalhava na Tribuna da Imprensa, na Rua do Lavradio, pedi ao contínuo Napoleão – uma figura tão folclórica quanto Rodrigo – que de desse um pulo no JB para pegar uma foto. Napoleão, cumpriu a missão mas fiquei desconfiado. Sem documentos, como ele teria entrado num jornal sizudo como o Jornal do Brasil?

Rigorosamente calmo e tranquilo, Napoleão (já falecido) me apresentou uma carteira absurda, obtida num dos botecos da Lapa: acreditem ou não, Napoleão (o companheiro Roberto Assaf está de prova) mostrou na portaria uma ‘Carteira de Cachaceiro’.

Ora bolas, se Rodrigo pode entrar fantasiado de bailarina (não era travesti, esclareça-se), mas a carteira de cachaceiro bateu todos os recordes, pelo menos nos jornais do Rio.

Até hoje Assaf conta essa história, mas seus alunos da Faculdade Hélio Alonso (meu professor de Latim e Eliakim Araújo, no vestibular de Direito) não acreditam na história.

Pena que Napoleão se foi e não pode provar...
 
(*)   Texto publicado originalmente no saite Direto da Redação,  editado em Miami (EUA). O autor do artigo é jornalista há 47 anos (atualmente na ESPN Brasil).

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