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Surrealismo puro...

(01.02.12)

Por Nelson Oscar de Souza
desembargador aposentado do TJRS


Fomos induzidos a acreditar, nos últimos oito anos, que “nunca antes houvera um país, um governo e um presidente,” tão bons como aqueles. E uma formidável massa de eleitores, inclusive letrados, acreditaram nesse bordão e votaram maciçamente na candidata do presidente. No nordeste, grande soma de municípios votou nela com índices superiores a 80 e, até, 92 % !

Curiosamente, os primeiros a notar que os fatos propalados não eram bem assim, foram os integrantes do novo governo, a começar pela senhora presidente. E a “herança maldita” que o ex imputava à administração de Fernando Henrique Cardoso, transformou-se em uma verdadeira herança maldita advinda dos mandatos do companheiro que impusera ao partido o nome da candidata vitoriosa...

Essa situação – aparentemente surrealista – começou a se tornar matéria frequente, repetida e uníssona na mídia que, antes, em boa parte, fazia eco aos proclamos do “nunca antes”. Basta ligar a televisão, basta abrir jornais e revistas. E é o que procurarei demonstrar.

“O Brasil demorará até 20 anos para ter padrão de vida europeu", diz o ministro da Fazenda – o mesmo do governo anterior...

“Custo de vida no Brasil supera o dos Estados Unidos”, quando medido em dólares sobre o PIB dos 187 países membros conforme o FMI, a quem emprestamos dólares... Enquanto isso, o governo pagou em junho do ano que passou, R$ 15,8 bilhões só para pagar a dívida pública do país, que anda rondando os dois trilhões de reais !

“Mais que o PIB da Inglaterra nós, brasileiros, já temos. Pena que renda per capita igual só daqui a 20 anos”, acrescenta manchete do dia seguinte.

“Impostos ‘comem’ 40% do salário do brasileiro” : o que não é para menos, já que contamos, como nunca antes, com 63 impostos nas três esferas da Federação. Mas, em compensação, segundo dados publicados ontem, entre os países pesquisados pela ONU, fomos classificados em último lugar quanto ao retorno desses impostos em serviços públicos oferecidos à população. E, em matéria de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano (saúde, segurança, educação)  -  ficamos classificados em um honroso 84º lugar.

E, para bancar o sistema elétrico brasileiro, deveremos pagar, nós os contribuintes, R$ 19 bilhões a mais, em 2012, na conta da luz, do que o fizéramos no ano anterior.

No Rio Grande do Sul, a indústria apresentou índices pífios de desenvolvimento, recuando até mesmo com relação a determinados meses de 2011. A manchete: “Atividade industrial gaúcha não dá sinais de retomada”, segundo a Fiergs.

Pesquisa demonstra a insatisfação dos usuários do sistema de saúde do SUS. O índice de 61% declara-o ruim ou péssimo, continuando as filas, que o ex-presidente afirmou terem desaparecido; e o atraso no atendimento de cirurgias ultrapassa os 12 meses, ou mais, em reiteradas situações demonstradas pela tevê.

Pelo que se vê, realmente, nunca houve antes um país como este: mas a responsabilidade, sublinhe-se, não cabe toda à atual senhora presidente – que ainda deve à nação um sério e consistente plano de realizações em nossa infra-estrutura absolutamente defasada (estradas, portos, esgotos...)   -, mas às carências na administração de seu criador.

O próprio PAC – por falta de projetos e planejamento adequados – continua ancorado na burocracia e não aplica sequer 20% das verbas que lhe foram destinadas no ano eleitoral e no corrente. E este fora o carro-chefe da propaganda da então candidata...

Na política... bem, deixemos para outra oportunidade.          

Os números transcritos originam-se em dados oficiais e nenhum desmentido governamental pode  fazer-se sentir. Como explicar, então, os assombrosos índices de aprovação do anterior e da atual presidente ?!

Ainda não encontrei explicações concludentes para o assunto. Mas deverão surgir  e certamente terão muito a ver com a desinformação e a incultura política de nossa gente. Aguardemos a palavras dos doutos...

oskar@terra.com.br

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