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A garçonete da sauna

(19.07.11)

Charge de Gerson Kauer


Por Afif Jorge Simões Neto,
juiz de Direito (RS)

 
Angélica, da Forquetinha, tentou a sorte em Porto Alegre. Cansada do serviço braçal, o dinheiro remanescente na volta do mês dava mal e porcamente para um pano de chita. A colônia já fora inventariada em vida pelos pais, destinando a cada herdeiro – quatro homens e ela – um pedacinho de terra perdida naquele socavão sequer visitado por Deus.

Ela botou na cabeça: aquilo não era vida. E se mandou, com a roupa do corpo e mais duas mudas. Trouxe na mochila, além do básico, as pinturas, o espelho e uma fotografia da família no batizado do Zequinha no ano passado.

Após um cursinho meia boca, onde aprendeu a ser babá de pessoas idosas, saiu a alemoazinha religiosa, casta e ingênua, a bater perna em busca de um emprego sem escalavrar as mãos no cabo da enxada.

Depois de uma manhã de caminhada sem rumo, viu o letreiro da Sauna Vesúvio com o aviso: "precisa-se de garçonete".

No segundo dia de serviço – o primeiro esvaiu-se com a papelada – recebeu um roupão atoalhado, acompanhado da explicação de que seria aquele o uniforme de trabalho por cima, mais a calcinha por baixo. E só. Angélica achou escassa a vestimenta -, mas, sabe como é, emprego não se desdenha. Ficou mesmo sem entender patavinas quando um velho barrigudo, num suador de capina de feijão no janeiro, gritou no vaporoso salão:

- Me serve um chope e colarinho e senta aqui no colo do Dedé, minha charolezinha!

As gurias trabalhadeiras no atendimento ao público só sentavam no colo do pai. Nem com irmão havia tanta intimidade. Muito esquisito tudo aquilo. Por via das dúvidas, Angélica pediu para ir embora, devolvendo ao patrão o estranho jaleco.

No outro dia, Clarinda, vizinha de quarto na pensão da Farrapos, convidou Angélica para conhecer o Parque da Harmonia e ver de perto os bombachudos em algazarra. Como o comércio lá era intenso, de repente poderia aparecer alguma vaga – menos de garçonete, é claro, pois tenha ressabiado.

Quando estavam indo embora, tarde da noite, um senhor de idade, gentileza em pessoa, sugeriu às duas uma visitinha ao piquete, onde ele, que se dizia peão caseiro, e mais o assador, aprontavam lingüiça de metro cortada à faca.

Após correr o picadinho, os homens trancaram porta e janelas do rancho de costaneira e se pelaram, assim como quem entra pro banho no açude fim de tarde. Enquanto o churrasqueiro procurava os seios de Clarinda, o que antes era mais educado avançou feito touro alçado em direção à mocinha do interior, num bafo maligno de canha com alho, sugerindo coisas que ela desconhecia.

- Isso aqui não é vida. Vou embora. Pelo menos na roça respeitam a gente! – foi a última frase de Angélica no bulício da Capital.

Anjo perdido em meio ao inferno, às trevas de cimento com aroma de óleo diesel. Assim, olhos grudados na janela do ônibus de volta para Forquetinha, ela deixou na quentura do asfalto pegadas de um sonho tombado na paisagem urbana.

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3 comentários
Josué Araujo (empreendedor)
Postado em 18.09.11 - 23:01:36

O campo não é menos perigoso que a cidade grande, claro que de certa forma é menor o Índice de crimes assim. Mas dada a proporção de pessoas que existem em um lugar e outro, os crimes fazem parte de nossa geração por um simples fato... somos uma geração de imputáveis...como se a lei tivesse força somente no papel, pela praáica de uma impunidade.
Rodimar Silva (advogado)
Postado em 24.08.11 - 15:34:52

Realmente o "causo" trás à tona uma realidade cotidiana romanciada. É dura a vida na cidade grande! Parabéns ao magistrado que criativamente escreveu sobre algo que acontece, mas com um senso de humor crítico.
José Luiz dos Santos (advogado)
Postado em 19.07.11 - 18:01:43

Essa é a realidade nua e crua de quem sonha com vida melhor na cidade grande. Parabéns, dr. Afif. Sua narrativa está perfeita.
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